A mulher nunca experimentou tanta liberdade como nos últimos cinqüenta anos de nossa história recente.
Todo mundo festeja o advento da pílula anticoncepcional como o marco zero dessa liberdade, o que não deixa de ser parcialmente verdade. Por que apenas parcialmente? Porque só nos últimos dez anos a mulher vem percebendo e aprendendo a lidar com as conseqüências da liberdade sexual.
Os homens (casados ou solteiros) sempre puderam sair por aí fazendo sexo e depois voltar para casa como se nada de relevante tivesse acontecido; mas, a mulher...Se tivesse sorte, voltava para casa sem engravidar, mas ganhava a pecha de "mulher-fácil", sendo preterida dentro da sociedade. Se desse azar, voltaria grávida e seria também preterida e discriminada pela sociedade, com o agravante de que sua prole também seria discriminada.
Resumindo, a mulher que ousasse se liberar sexualmente estaria "fodida" e num sentido muito mais amplo que o de fazer sexo. Isso parece o retrato de tempos muitos distantes, mas não é. Foi logo ali atrás, há menos de 30 anos, quando a maioria de nós estava sendo colocada neste mundo.
Quando digo da liberdade parcial advinda do uso dos anticoncepcionais, quero tocar num ponto mais delicado e muito pouco discutido: a fragilidade emocional das mulheres. Deram a elas uma cartelinha e incutiram nelas a idéia de que aquilo era como a espada da She-Ra: era só brandir a cartelinha e você seria uma deusa, com poder para decidir onde, quando e com quem transar, ou seja, seria quase um homem.
Ah, se não fosse o "quase"...
Dizem que as mulheres ainda não aprenderam a dissociar sexo de relacionamento estável, e, ouso completar, nem relacionamento estável de amor. Sei que vozes inflamadas se erguerão contra o meu raciocínio, com as feministas me chamando de retrógrada, as românticas me chamando de obscena ou impudica, os homens com cara de "onde ela quer chegar?" e as mulheres inteligentes e realistas talvez querendo concordar comigo.
Vou tentar explicar melhor. Entendo que o que faz o indivíduo ser livre não é poder decidir o que quer fazer, mas fundamentalmente, decidir o que não quer de forma alguma. E a maioria das mulheres ainda não conquistou esse poder. É só parar para pensar:
1) Todas querem ganhar bem, mas nenhuma admite ser responsável pelo provimento financeiro do namorado ou marido, mesmo temporariamente, embora achem que ele tenha essa "obrigação" para com ela.
2) Todas querem ser independentes, ter o próprio carro, poder sair e voltar a hora que quiserem, mas nenhuma quer ir ao cinema sozinha (maior mico, vão notar que você deve ter algo errado, afinal, com essa idade e não tem companhia nem para ir ao cinema?)
3) Todas querem ser mães, ter filhos fofos como os de comercial de fraldas descartáveis, mas nenhuma quer a ruína física natural que acompanha esse processo. Pára, né? Só a Angelina Jolie sai da sala de parto com uma barriga mais sarada do que a da Gwen Stefani...
4) Todas querem ser desejadas, se vestem e se comportam para suscitar desejo, mas nenhuma quer que o cara pule em cima dela como um sedento que chega ao oásis. Querem romance: chuvas de pétalas de um helicóptero, faixas nas avenidas perto de casa prometendo amor eterno, mensagens de texto no celular a cada 30 minutos, beijos hollywoodianos antes do "vem cá, minha nega".
5) Todas querem ser lindas como as divas da passarela e da televisão, mas somente elas tem dinheiro, paciência e motivação real para suportar a dor dos medicamentos sendo injetados nas coxas pra acabar com a celulite, ficar horas com produtos de cheiro horrível em seu cabelo pra ganhar aquele efeito liso de comercial de shampoo, resistir bravamente às cânulas que rasgam a gordura localizada do seu baixo ventre na lipo... (fora o estrago no bolso e o risco de morte na mesa de cirurgia!). A maioria mesmo está sempre adiando o regime para segunda-feira, sem falar naquelas que nem pensam no assunto ou aquelas que levam a sério, mas ficam insuportavelmente obcecadas e chatas, pois não tem outro assunto na vida.
6) Todas querem ser a "tchutchuquinha do tigrão", delicadas, frágeis flores de violeta expostas à tempestade que precisam de uma redoma para sobreviver à tormenta. Querem ser Lois Lane, voando protegidas nos braços do Superman, mas esquecem que as Lois Lane tem mátéria urgente pra entregar, chefe ranzinza e chegam em casa cansadas, muitas vezes se deparando com a geladeira vazia e a cama mais vazia ainda...
Deu pra entender? As mulheres hoje passam por uma tremenda crise de identidade: olham para si mesmas e vêem a Branca de Neve - jovem, frágil, romântica e perdida num mundo cruel; olham no espelho do mundo e o reflexo é o da Rainha Má - linda, poderosa, decidida e fazendo acontecer a estória, mas já com prenúncio de não conhecer um "happy-end".
Aqui, chegamos ao que eu queria explicar: como os homens ora querem a Branca de Neve, ora suspiram pela Rainha Má, a maioria das mulheres fica com o pé em duas canoas, tentando dar conta dessa dualidade.
A maioria não consegue, claro!
Por isso digo que somos frágeis emocionalmente, tentando satisfazer expectativas de homens que também parecem não saber bem o que querem. A diferença é que eles escolhem uma trilha e não olham mais para trás e nós ficamos nos martirizando, tentando saber como teria sido, se fosse...


Belo blog, Linda foto, conteúdo 10, parabéns!
ResponderExcluirAgora a discussão levantada por ti, sobre a liberdade feminina, acho tão difícil. O mundo que nos foi deixado tá de cabeça pra baixo e junto com ele todas as relações. Me preocupa o que vamos deixar para as próximas gerações, se for o reflexo de nosso conflitos, viche, vai ser foda.
Concordo com o camarada Valdênio e com o seu belo artigo. Enfim, o mundo anda tão complicado, complexado e caótico. E a causa de tudo isto é a utopia, vendida diariamente por marqueteiros, da vida jovem eterna que é sermos lindos, sarados e animais sexuais ad eternum, o que é impossível. Em resumo, nos sonegam o direito de envelhecer e, portanto, de morrermos com dignidade e com tudo o que isto representa. A crise de identidade feminina se alia à masculina: somos machos reprodutores, pit boys, fodedores natos, metrossexuais, emotivos, sensíveis ou tudo isto junto e misturado?
ResponderExcluirNo fundo, só há o individuo, independente do gênero, sem quaisquer rótulos ou estereótipos, rumo ao túmulo, diariamente. kkk...Que pessimismo!..rsrs
Gostei do seu blog. Li tb seu twitter.
Eugênio
Vou te seguir a patir do meu blogue tá?
ResponderExcluiré o antisposante.blogspot.com
Eugênio
ooops..
ResponderExcluiré antiposante.blogspot.com